sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O que pode significar uma mostra de cinema?

Na minha vida a Mostra de Cinema de São Paulo significou quase tudo. Estava em São Paulo, em outubro de 1978, acabara de fazer 21 anos e entrei no cineclube do MASP que ficava no subsolo. O lugar estava lotado, as pessoas sentadas no chão. Entrei à tarde e só sai à noite - uma semana depois. Era a 2ª Mostra de Cinema de São Paulo.


Não sei quantos filmes tinha mas , eu assisti pelo menos a mais de um dezena de filmes de países tão inusitados quanto Tchecoslováquia, Romênia, Cuba, Polônia, Iugoslávia, Coreia, Holanda até filmes de países próximos como Argentina, Colômbia, Venezuela e um brasileiro que me impressionou muito. Era os Muckers. Este filme tinha uma narrativa e uma câmera que parecia que eu estava sendo transportada no tempo e como um voyeur observava acontecimentos de 100 anos antes. Era um documentário, mas não poderia ser. Nunca tinha visto algo assim e acho que também não vi depois. Era Bodanzky.




De repente as janelas para o mundo se abriram. Naquela idade já tinha visto muitos filmes e desde os 14 anos me acostumara a ficar horas no cinema, mas a Mostra era um paraíso para um cinéfilo. Passei a ir todo ano e durante uma semana ficava lá em São Paulo: piolho de cinema prestava atenção neste novo mundo.




Na direção da Mostra um cara serio de poucas palavras e vindo de uma família de armênios defendia, em plena ditadura, o direito dos filmes serem exibidos e o nosso direito de assisti-los. Leon Cakoff fez da sua Mostra de São Paulo a melhor mostra de filmes mundiais e autorais do Brasil e também uma das melhores do mundo. Ele é reconhecido e admirado por cineastas de todo planeta.




Minhas incursões à Mostra de São Paulo me fizeram fazer documentários, escrever uma dissertação de mestrado sobre cinema, montar junto com outros cinéfilos uma fundação (Documenta) e criar uma rede de cinemas em Belo Horizonte nos anos 90 (Cinemas Liberdade). Depois, nos anos 2000 , vendi a rede para ninguém menos que o Leon Cakoff (em sociedade com Ademar de Oliveira). Esperava que eles dessem um gás unindo as salas daqui ao circuito existente em São Paulo. Mas a praça aqui é dura, eles saíram e desta rede só o cine Belas Artes sobreviveu.




Mais uma vez inspirada na Mostra de SP criei junto com Adyr Assumpção a Mostra Imagem dos Povos – também dedicada ao cinema mundial e autoral. Pude nestes anos todos viajando pelo mundo e participando de festivais e realizando mostras entender o que significava Leon Cakoff e sua persistência em fazer a Mostra. Sempre o admirei e é a ele que hoje agradeço minhas muitas horas cinéfilas: obrigado Leon.


Valeu!

Tâmara Braga Ribeiro
Diretora da Mostra Internacional Imagem dos Povos
MG

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